
São mais de quarenta anos dedicados à engenharia, à investigação, à docência, ao compreender dos “comos” e “porquês” do funcionamento das coisas. Alexandra Pinto, engenheira química de formação, está na Universidade do Porto desde 1986 a dar corpo a esse propósito.
Percebeu desde criança que queria compreender o funcionamento das coisas e, por isso, “a investigação surgiu como um prolongamento natural dessa curiosidade”, conta. É engenheira química de formação, uma área que sempre a fascinou pois combinava várias áreas do saber – como a matemática, a física e a química – de forma equilibrada. No início da carreira investigou combustão do carvão, mas, com o virar do século, voltou-se para as energias renováveis: “Costumo dizer que sou a prova viva de que a transição energética é possível, até na carreira de um investigador”, diz.
Concluiu o seu doutoramento em 1991. Hoje em dia, divide-se entre o laboratório e a sala de aula, de forma a, como a própria indica, conseguir dar corpo às duas paixões que sempre a dividiram: “investigar e ensinar”. Ao longo do seu percurso académico percebeu, no entanto, que uma reforça a outra: “investigar para ensinar melhor, e ensinar para investigar com mais propósito”. Uma vez que a escolha da área científica se prendeu, também, com o facto de a engenharia química permitir “atuar em múltiplos setores com impacto direto na sociedade”, hoje em dia faz questão que os seus estudantes contactem de perto com tecnologias emergentes: “Acredito profundamente no princípio “teaching by research”, formando novos engenheiros através do contacto direto com ciência viva e desafios reais”, revela.
Todos esses objetivos e propósitos guiam a vida académica de Alexandra Pinto nos dias de hoje, sendo um dos principais “transformar conhecimento científico em soluções práticas”, algo que a move em todos os projetos que lidera, conduzindo a importantes conquistas.
Conseguir transformar investigação em soluções reais
O ano de 2025 foi marcante para Alexandra Pinto e as equipas que lidera. O projeto GENESIS 2.0 – cuja primeira versão ganhou o BIP Acceleration em 2022 – foi um dos selecionados para receber financiamento na edição 2025/2026 do BIP PROOF. Além disso, esta inovação é uma de quatro tecnologias da U.Porto selecionadas no projeto MPr-2024-8 do Portugal 2030 para um financiamento conjunto que ultrapassa mais de 160 mil euros.
Posicionando-se como uma “solução limpa, segura e eficiente”, o GENESIS 2.0 produz hidrogénio e eletricidade diretamente em pequenas embarcações, sem emissões. Para isso utiliza “cartuchos recarregáveis e subprodutos valorizáveis contribuindo ativamente para a transição energética e descarbonização do setor marítimo”, explica a investigadora.
Para a equipa por detrás da invenção, liderada por Alexandra Pinto, é urgente desenvolver soluções alternativas sustentáveis no setor marítimo face ao “aumento exponencial do consumo de energia elétrica e à elevada dependência, principalmente no caso de pequenas embarcações, de combustíveis fósseis e poluentes. Foi com isso em mente que puseram mãos à obra.
Também este ano Alexandra Pinto conduziu uma equipa à grande final da primeira edição do SheLeads Ventures, uma iniciativa pensada para promover a liderança feminina no empreendedorismo. O projeto SilentSea ficou em terceiro lugar. Falamos de uma alternativa aos ruidosos motores a diesel utilizados em pequenas embarcações de pesca para puxar as redes – os aladores. Substitui os mesmos por um “sistema limpo, silencioso, seguro e totalmente autónomo, baseado em hidrogénio produzido a bordo”.
A docente e investigadora fala destas conquistas como “fundamentais” pois permitem-lhe “transformar investigação em soluções reais”. Na sua opinião, as distinções atribuídas aos dois projetos nos programas da U.Porto Inovação “reforçam a maturidade e aceleram o caminho para o mercado”. Já o avultado financiamento obtido através do Portugal 2030 é, como refere Alexandra Pinto “um apoio precioso, permitindo avançar com segurança nas fases mais exigentes do processo de valorização tecnológica".
"Levar a transição energética até onde ela ainda não chegou"
De olhos postos no futuro, Alexandra Pinto trabalha diariamente para dar corpo a um sonho antigo, nascido enquanto caminhava com os seus filhos na praia, junto a docas de pesca: “contribuir para despoluir aquelas águas, muitas vezes marcadas por resíduos de combustíveis”, confessa. E, graças também às suas tecnologias, esse sonho está finalmente a ganhar forma, caminhando de forma firme para “criar embarcações mais limpas, silenciosas e sustentáveis, que melhorem o ambiente e o trabalho de quem vive do mar”.
Para lá chegar é preciso levar as tecnologias a demonstrações reais em barcos e consolidar parcerias com a indústria marítima, passos em que a investigadora se encontra a trabalhar neste momento, em conjunto com as suas equipas. Além do GENESIS e do SILENT SEA, Alexandra Pinto tem ainda a seu cargo o GREENSHIP, centrado na produção de hidrogénio limpo a bordo utilizando a tecnologia do GENESIS.
O plano é claro, assume: “Transformar tecnologia em impacto, levando a transição energética até onde ela ainda não chegou – ao mar e às pequenas embarcações que sustentam tantas comunidades”, conclui.






