Foi em 1968 que Alírio Rodrigues saiu da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto com o canudo de Engenheiro Químico e, depois de uma temporada a dar aulas na Universidade de Luanda, partiu para Nancy (França), onde fez o seu doutoramento. Tal como começou, foi também na FEUP que deu a sua última aula em 2013, numa cerimónia de Jubilação intitulada “My Journey. What’s next?” onde falou do seu percurso como professor mas também como investigador naquela Faculdade, da qual foi diretor duas vezes: “A investigação é uma tarefa indissociável do ensino, para um professor da FEUP. Não concebo um professor da U.Porto sem ser investigador”, disse.
Nas palavras de Alírio Rodrigues, o maior estímulo para esta carreira dedicada ao ensino foi o período em que deu aulas na Universidade de Luanda, onde permaneceu durante seis anos, só voltando à Universidade do Porto em 1976. Entre outras conquistas ao longo de uma carreira preenchida, importa dizer que foi o principal impulsionador do Laboratório de Processos de Separação e Reação (LSRE), criado em 1990, do qual também foi diretor. Ao longo dos anos ensinou também unidades curriculares relacionadas com Engenharia Química em várias universidades internacionais de renome, entre elas a University of Virginia (EUA), a Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil), onde ainda leciona, ou até mesmo o Institute of Chemical Technology, na Índia.
O primeiro contacto de Alírio Rodrigues com a UPIN foi feito em 2004 para comunicar uma invenção, cujo pedido de patente viria a ser concedido em Portugal dois anos depois. Na opinião do investigador, “o contacto com o gabinete foi sempre fácil e de boa colaboração”.
Investigação dedicada aos solventes verdes
A tecnologia chama-se “Processo Industrial de produção de acetais num reator adsortivo de leito móvel simulado”. Explicada de forma mais simples, trata-se de um equipamento que permite que, ao longo de um processo químico, tanto a reação (mistura de componentes) como a separação (para retirar um ou vários componentes da reação, que poderá ser usado para outros fins e processos) se realizem nesse mesmo equipamento. Conseguem-se assim grandes níveis de poupança de energia, poupança de investimento no equipamento e também maior rapidez no processo. Ou seja, “combinando, numa só unidade, reação química e separação dos produtos à medida que se vão formando, vai permitir ultrapassar limitações termodinâmicas em reações reversíveis”, explica Alírio Rodrigues, acrescentando que, numa primeira fase, a ideia foi testada para produção de um acetal chamado DEE – Diethyl Acetal, “que poderia ser usado como aditivo verde para diesel”.
O reconhecimento surgiu em Abril de 2006 e esta foi a 5ª patente do portfolio da UPIN a ser concedida a nível nacional. O caráter inovador da tecnologia fez com que não tardasse a obter a proteção também na Europa (2008) e nos EUA (2009), tornando-se na primeira patente internacional concedida para a Universidade do Porto. Desde então, a UPIN tem trabalhado na comercialização desta tecnologia com o investigador, que teve uma outra patente concedida em território nacional em 2011, relacionada com a primeira e continuando a ir de encontro ao trabalho orientado para as preocupações ambientais na engenharia química. Desta vez o produto testado no novo processo foi um solvente verde, o Ethyl Lactate.
Do trabalho com o gabinete, Alírio Rodrigues destaca a facilidade de acesso e as pessoas com quem trabalhou e, ao mesmo tempo, os processos em que a UPIN ajuda os investigadores: “Vou acompanhando o trabalho da UPIN mas, como já conheço o processo de patentear, centro-me agora mais no que a UPIN pode fazer para manter vivas e licenciar/vender as patentes”, tarefa essa que considera bem mais complicada e com necessidade de financiamento.Ao longo dos anos a UPIN tem dialogado com inúmeras empresas em vários pontos do globo no sentido de se avançar com o scale up e exploração comercial das patentes, estas inclusive. Exemplos de empresas são as francesas Arkema e TOTAL, a sueca SEKAB, as brasileiras PETROBRAS e BRASKEM, as portuguesas GALP Energia e Technoedif, as norte-americanas CARGILL, DOW e Myriant, a espanhola ABENGOA, a alemã BASF, entre outras.
O trabalho de Alírio Rodrigues valeu-lhe já diversos prémios, como o Prémio “Estímulo à Excelência” em 2004, atribuído pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e também o Prémio de Excelência Científica da FEUP, em 2009. Além disso, a sua tecnologia recebeu o prémio internacional “Model-Based Innovation 2012” e o “ABB Global Consulting Award for Sustainable Technology” nos Prémios IChemE para a Inovação e Excelência, em 2008. Com mais de 500 artigos científicos publicados, a pergunta “e agora?” impõe-se. “Gostava de ver uma unidade industrial a utilizar, efetivamente, esta tecnologia”, confessa. Para já, e enquanto isso não acontece, continuam os projetos tanto em Portugal (“New adsorption-based cyclic reaction separation processes”, financiado pela FCT e que irá até 2015) como no estrangeiro, e também o trabalho na engenharia de perfumes. Apesar da sua jubilação no ano passado, a paixão do ensino ainda se mantém, pelo que Alírio Rodrigues se desloca a Fortaleza, no Brasil, para ensinar no âmbito do programa Ciência sem Fronteiras para, como refere, conseguir fazer o que lhe é “vedado em Portugal”.






